Estado de graça

É engraçado como chegamos a uma altura das nossas vidas e consideramos que a partir daquele momento tudo o que temos é nosso e tudo o que nos rodeia é estático. É engraçado como pensamos que temos as pessoas como parte de nós e a era de ouro para sempre. É engraçado como nisto se passam três anos, como se muda de cidade e como pessoas correm como rios. É engraçado como tudo o que considerávamos estático deixou de o ser, e caímos no erro de tentar petrificar o presente. É engraçado que gostemos de nos enganar a nós próprios de forma a enjaular as coisas livres e achar tê-las como nossas.

É engraçado, de certa forma, que achemos graça em viver num mundo paralelo que tem muito menos graça do que o real, só porque temos medo de o ver correr. É, é engraçado.

Telemóveis-faz-tudo

Não sei bem como nem porquê, mas hoje dei comigo a pensar de forma bastante afincada na estabilidade das relações humanas neste cenário dormento-depressivo em que o planeta se encontra – ou, pelo menos, boa parte dele.

Nos dia de hoje, ouvimos falar, mais do que nunca , em depressão, em crise, em pânico e ansiedade, não se fecham as janelas todas, e ouvimo-lo da porta ao lado. Talvez isto tudo advenha  da nossa capacidade de compreensão, que cresceu connosco, ou com a capacidade de complicar tudo, que nos é inerente.

Só acho que o Mundo se sente só. Não durante as aulas ou o trabalho, não enquanto toma o seu café duplo com conexão wi-fi gratuita, nem mesmo quando sai para correr e leva consigo os seus dados móveis que o ajudam a partilhar a vitória de cada quilómetro. O Mundo sente-se só à noite. Na noite faz frio e desligam-se os telemóveis-faz-tudo que o ligam ao universo que ele criou e aos seus não-tão-amigos. De repente deixam de tinir notificações  que ressaltam a importância de coisas banais ou mesmo das coisas banais de outrém que nada nos dizem.

Não quero ser demasiado dura com a tecnologia, até porque é bastante útil e por vezes chega a ser reconfortante. Quero ser dura comigo mesma e com o Mundo que se sente só. Quero ser dura porque construímos bases em terrenos imaginários, em universos em que existem 1000 likes numa publicação pessoal devastadora e  nenhuma chamada nem nenhum toque de campainha inesperado que traz o conforto necessário.

O calor não é virtual e vivemos numa ilusão tecnológica que nos torna seres cada vez mais sós. Conseguimos caminhar numa avenida longa sem olhar nunca a avenida em si ou as pessoas. Partilhamos a casa com biliões de pessoas e mesmo assim conseguimos ser sós.

Somos criaturas estranhas.

Com amor,

Rita

6 de Agosto de 2014

   “Acorda para a vida, Rita! Tens andado a dormir ultimamente”. É-me agora possível compreender a impotência que sinto em tudo o que tento fazer. Eu não sou vida… eu estou dormente. Encontro-me num estado de constante ausência que faz com que aquele riso genuíno fique aprisionado nos meus pulmões e com que não viva na vertente mais humana da palavra, existo.
    Há dias em que gosto da minha liberdade. Gosto dela sem me aperceber que, como qualquer outra, é fabricada e falsa, porque ninguém é inteiramente livre nem sabe o que ser livre significa. No entanto, todos nos julgamos livres. Isto funciona como um quarto de espelhos, parece um local infinito e somos uma multidão para nós próprios num espaço com escassos metros quadrados.
    Talvez isto não passe tudo disso, talvez esta tempestade seja só um truque barato de ilusionismo ou talvez caminhe mesmo com mais peso no pé esquerdo, porque segundo Mia Couto, é sinal de desgosto, porque é o lado do coração.

   Serão então os esquerdinos os que escrevem inteiramente com o coração? Serão deles as mais bonitas cartas de amor ou rascunhos de madrugada? Será por isso que esquerda é sinonimo de sinistra , embora esta ultima tenha uma conotação inteiramente sombria? Será que o Homem, ou a sociedade em si, receiam assim tanto o coração e o que o torna humano?
   Talvez seja por isso que se ensinam as crianças a escrever com a mão direita, querem adultos racionais e imparciais, abandonados do que eventualmente nutre o que em nós há de mais profundo. Talvez se ache que essa ilusão é benéfica.
    Quem ama é sinistro, segundo as línguas latinas. Talvez porque quem ama se dá, se expõe com todos as falhas e fragilidades e se perde nas falhas e fragilidades de alguém ou de algo. Esse desamparo, esse desnorte são de uma beleza incomparável.

    Os que optam pela esquerda são quem vive, os que tentam caminhar por lá, também.

    Com Amor,

        -Rita

Peixes-coisas

Até ao presente dia, sempre tive a ideia um tanto quanto utópica de que cada pessoa, cada ser humano, possuía algo em si que lhe era tão intrínseco e excitante como o sangue que lhe corre nas veias e artérias pelo corpo e que, essa força circulante o tornava único e especial na forma como age, como toma decisões e na forma como vê o mundo.

Isso contrariaria muitos estereótipos e faria com que existissem precisamente 8 biliões e mais algumas pessoas únicas e completamente diferentes, dando aso a muitos debates sexistas sobre quem é igual a quem.

Nada na natureza tem uma copia perfeita. Aqui entrou a civilização e a industrialização e ensinou-nos que a técnica mecanizada pode , de facto, produzir ,não apenas dois, mas vários itens iguais. Mas as pessoas não são coisas, portanto ainda existia a hipótese de que cada pessoa poderia ser igual apenas a si mesma e ter um encanto próprio. Aqui entra a adaptação humana à realidade mecanicista, aqui entra a rede que apanha grande parte do peixe no mar, toldando opções, perspetivas e atitudes, desligando-o da natureza.

Estes peixes, que seguem em cardume e encarnaram coisas, convenceram o mundo e desfizeram muitas coisas mais fortes que aço, apelaram à solidão e à noite constante.

Ontem, quiseram que percebesse que o sangue que me corre nas veias não faz de mim especial e única, apenas humana.

Hoje estou em negação, porque afinal o dia esta soalheiro

Azul

Hoje, quando o mundo começou a andar a mil refugiei-me no jardim. 
Não que seja um grande e exuberante jardim, são poucos metros quadrados de relva macia com uma ou outra aspirante a árvore de fruto que, quando calha, dá razão ao nome.

Não sei porquê mas a sensação da relva fresca na pele e o azul do céu acalmaram um pouco o meu animo. O meu pai costuma ir para o jardim no fim do dia e até hoje eu não percebia porquê, assumo que seja genético, assumo que seja uma das muitas coisas que ganhei por ser, na língua popular, “uma fotocopia dele”. 

Senti a textura da relva nas mãos e por uma vez em anos deixei de me preocupar com a sujidade e com os micro habitantes daquele espaço, senti-lhe a frescura nas costas e a brisa na cara. Quando abri os olhos vi um pleno de azul com duas listas negras como num jogo de sombras. Tenho que admitir que os cabos eléctricos lhe davam um ar algo poético.

Vi os pardais voarem baixo e pousarem e por momentos esqueci-me que o mundo girava a mil, esqueci o que sabia e fiz parte da paisagem.

Segui, até desaparecerem do meu quadro, a rota dos aviões que o meu pai diz que voam para Londres, se para lá voam ou não acho que nunca hei-de saber. Aqueles aviões voam para onde voam os sonhos dele e agora, inconscientemente, os meus.

Porque as coisas obedecem a categorizações rígidas o meu jardim era um pomar enorme, os cabos tinham uma beleza própria e aqueles aviões voavam para Londres. 

 

 

Orgão moral da vida humana

Quão diferentes seriam as nossas vidas se lhes mudássemos apenas um ínfimo detalhe?

                Quero acreditar que esta pergunta faz parte do eterno dilema pessoal de cada um assim como do meu. Dou por mim a questionar-me se este foi o caminho certo, a tentar preencher uma lista infinita de motivos para tomar noção que esta foi a escolha certa.

                A incerteza acaba por ser uma constante humana, o ser humano não é fixo nem constante como muitos querem acreditar, o ser humano é moldável, mutável e transitório. Constitui um sistema aberto e interdependente do que o rodeia.

                Nunca sonhei desde pequena ser médica e hoje, com vinte anos, ainda não tenho as ideias assentes. Quero crer que isto é uma viagem e que vou tirar o maior proveito que conseguir dela sem deixar de apreciar a brisa.

                Tento não deixar o meu amor às artes de lado porque nem só de pão vive o homem e nem só de ciência vive a medicina. Penso que um bom médico é, para além de um exímio cientista, um belíssimo artista. Se pensarmos bem, analisar um fresco ou uma sonata não é muito diferente de analisar um paciente. Requer paciência, perícia e uma mente aberta, disposta a traçar novos caminhos e chegar à interpretação fiel.

                De modo a tentar acalmar a minha psique, que insiste em agitar-se de quando a quando, digo para mim mesma que as artes humanizam o cientista. Saber reconhecer a delicadeza de cada coisa bem como a sua essência é, para além de um princípio oriental, uma norma da arte. Este princípio acaba por ser demasiado valioso na medicina e na humanização da mesma. Quem compreende a emoção de uma sinfonia também a consegue certamente perceber numa pessoa fechada, quem consegue sentir a emoção impressa nas letras de um poema é também capaz de compreender a comunicação não-verbal durante a visita do paciente.

                Com isto, quero acreditar que esta foi a decisão certa, de que ajudar quem mais precisa me vai preencher e tornar plena mesmo que estes anos mais teóricos me levem a duvidar de mim mesma.

                Termino com as palavras do ilustre Leo Tolstoi “A arte deve ser um órgão moral da vida humana”.

31 de Dezembro

Que todos os dias sejam como este último
Que em todos exista aquela esperança infantil
e o riso desmesurado em tom de alívio.

Que o fim do ano continue a ser o fim temporário de todos os problemas do mundo,
Que se continuem a fazer listas idiotas que apenas neste dia parecerão tangíveis.
Que se comam as passas mesmo contra vontade,
E que a nossa visão se banhe a tons dourados e brilhos intensos.

Que o último dia do ano seja aquele em que o mundo é a utopia,
Onde crise  apenas precede crisantemos.
Usem-se as peles,
Abuse-se do champanhe
Que a realidade tem folga hoje.

Eu quero

Eu quero, sem demoras e percalços, ser aquele ponto final que marca o objectivo cumprido.

Quero, sem rodeios e ameias, deixar o i de lado e passar a ser completa, do meu jeito estranho e com os tons que vejo o mundo. 

Eu quero deixar de ser a página em branco no final do livro. Que se escrevam em mim todas as letras e entre elas formem as mais bonitas palavras, as mais fortes e no entanto, as mais simples, sem capitais ou hipérboles.

Eu quero ser o álbum de todos os que, por um motivo ou outro, entraram na minha vida  graças àquela poderosa força que é o acaso, e dos que já estavam premeditados. Quero que em mim se reflictam as acções deles, quero ser o espelho dos seus pensamentos, como um rio.

Quero desesperadamente ser a água límpida e corrente que atravessa o mundo e corre sempre com o mesmo entusiasmo sem nunca perder a claridade e beleza na sua simplicidade.

Que se faça de  mim espelho de ti, espelho dos outros. Que todos os momentos potencialmente bonitos sejam bonitos e que se ache beleza nos menos formosos.

Eu quero, sem demoras nem percalços, ser.

Flume

Acho que estou a ter uma overdose de ciência na minha vida. Socorro!
Não sei se sou apenas eu a portadora destes sintomas estúpidos de vez em quando ou se realmente acontece a toda a gente, continua a ser um grande mistério para mim, ainda está na fase da adolescência – o que é legitimo uma vez que ainda não mudei o segundo digito.

Por vezes é preciso sair da rotina um bocadinho para perceber isto, partir à aventura. Este fim de semana fui uma turista na minha segunda cidade e descobri coisas fascinantes que a minha maquina fotográfica mental registou, assim vão ficar gravadas com a magia do momento, porque as fotos captam a visão, não o momento.

É preciso ver, falar. É preciso comunicar e expressar o que de mais idiota vai na nossa cabeça, verbal ou não verbalmente. Estes últimos dias tenho me sentido um pouco abandonada, não pelas pessoas que adoro e me adoram de volta, mas pelas artes que costumavam ter um papel tão importante no meu dia a dia.
Talvez tenha sido eu quem as abandonou, sinto falta dos meus guaches e aguarelas que por esta altura são pó colorido, da minha guitarra que aos meus olhos o tempo não muda, tenho saudades de ouvir o som de um piano acústico à uma da manhã.

Acho que preciso de rever algumas prioridades na minha vida e não sobrevalorizar a ciência como a grande massa das pessoas, embora a minha vida seja ciência , ciência e mais ciência. Gosto muito dela também, alimenta o meu bichinho da curiosidade mas é como aquela música da qual que gostamos tanto tanto que ouvimos sem parar. Eventualmente cansa. Porque apenas com a subjetividade da arte conseguimos perceber que “tudo na vida é bonito, basta olhá-lo do ângulo corretoJohn

Beijinhos e bom resto de fim de semana.

-Mag

Quase, quase

Yellow!

Cinco horas dentro de um autocarro dão bastante que pensar, especialmente se não houver nada mais a fazer para além disso.

Estou algures entre Viseu e Albergaria numa das minhas visitas mensais a casa, sabe tão bem regressar! O sentimento de regresso preenche bastante uma pessoa, é aquela adrenalina tipicamente portuguesa de rever o que já alguma vez foi habitual, aquilo que deixa saudade, e saudade não tem tradução. É  em fins de semana como estes em que se dá atenção aos detalhes, que se repara em curvas adicionais de sorrisos, em variações nas íris,  em trejeitos, em cabelos mais compridos e barbas mais selvagens, é em fins de semanas de regresso que olho para a cidade em que vivi praticamente toda a minha vida com os olhos de uma turista e vejo os as gravuras delicadas nas pedras dos edifícios, as varandas com flores que caem em cores vibrantes mesmo sendo outono e os cheiros quentes a chuva e pessoas em correrio.

Estou quase quase em casa, que bom.