Azul

Hoje, quando o mundo começou a andar a mil refugiei-me no jardim. 
Não que seja um grande e exuberante jardim, são poucos metros quadrados de relva macia com uma ou outra aspirante a árvore de fruto que, quando calha, dá razão ao nome.

Não sei porquê mas a sensação da relva fresca na pele e o azul do céu acalmaram um pouco o meu animo. O meu pai costuma ir para o jardim no fim do dia e até hoje eu não percebia porquê, assumo que seja genético, assumo que seja uma das muitas coisas que ganhei por ser, na língua popular, “uma fotocopia dele”. 

Senti a textura da relva nas mãos e por uma vez em anos deixei de me preocupar com a sujidade e com os micro habitantes daquele espaço, senti-lhe a frescura nas costas e a brisa na cara. Quando abri os olhos vi um pleno de azul com duas listas negras como num jogo de sombras. Tenho que admitir que os cabos eléctricos lhe davam um ar algo poético.

Vi os pardais voarem baixo e pousarem e por momentos esqueci-me que o mundo girava a mil, esqueci o que sabia e fiz parte da paisagem.

Segui, até desaparecerem do meu quadro, a rota dos aviões que o meu pai diz que voam para Londres, se para lá voam ou não acho que nunca hei-de saber. Aqueles aviões voam para onde voam os sonhos dele e agora, inconscientemente, os meus.

Porque as coisas obedecem a categorizações rígidas o meu jardim era um pomar enorme, os cabos tinham uma beleza própria e aqueles aviões voavam para Londres. 

 

 

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