Telemóveis-faz-tudo

Não sei bem como nem porquê, mas hoje dei comigo a pensar de forma bastante afincada na estabilidade das relações humanas neste cenário dormento-depressivo em que o planeta se encontra – ou, pelo menos, boa parte dele.

Nos dia de hoje, ouvimos falar, mais do que nunca , em depressão, em crise, em pânico e ansiedade, não se fecham as janelas todas, e ouvimo-lo da porta ao lado. Talvez isto tudo advenha  da nossa capacidade de compreensão, que cresceu connosco, ou com a capacidade de complicar tudo, que nos é inerente.

Só acho que o Mundo se sente só. Não durante as aulas ou o trabalho, não enquanto toma o seu café duplo com conexão wi-fi gratuita, nem mesmo quando sai para correr e leva consigo os seus dados móveis que o ajudam a partilhar a vitória de cada quilómetro. O Mundo sente-se só à noite. Na noite faz frio e desligam-se os telemóveis-faz-tudo que o ligam ao universo que ele criou e aos seus não-tão-amigos. De repente deixam de tinir notificações  que ressaltam a importância de coisas banais ou mesmo das coisas banais de outrém que nada nos dizem.

Não quero ser demasiado dura com a tecnologia, até porque é bastante útil e por vezes chega a ser reconfortante. Quero ser dura comigo mesma e com o Mundo que se sente só. Quero ser dura porque construímos bases em terrenos imaginários, em universos em que existem 1000 likes numa publicação pessoal devastadora e  nenhuma chamada nem nenhum toque de campainha inesperado que traz o conforto necessário.

O calor não é virtual e vivemos numa ilusão tecnológica que nos torna seres cada vez mais sós. Conseguimos caminhar numa avenida longa sem olhar nunca a avenida em si ou as pessoas. Partilhamos a casa com biliões de pessoas e mesmo assim conseguimos ser sós.

Somos criaturas estranhas.

Com amor,

Rita

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