Peixes-coisas

Até ao presente dia, sempre tive a ideia um tanto quanto utópica de que cada pessoa, cada ser humano, possuía algo em si que lhe era tão intrínseco e excitante como o sangue que lhe corre nas veias e artérias pelo corpo e que, essa força circulante o tornava único e especial na forma como age, como toma decisões e na forma como vê o mundo.

Isso contrariaria muitos estereótipos e faria com que existissem precisamente 8 biliões e mais algumas pessoas únicas e completamente diferentes, dando aso a muitos debates sexistas sobre quem é igual a quem.

Nada na natureza tem uma copia perfeita. Aqui entrou a civilização e a industrialização e ensinou-nos que a técnica mecanizada pode , de facto, produzir ,não apenas dois, mas vários itens iguais. Mas as pessoas não são coisas, portanto ainda existia a hipótese de que cada pessoa poderia ser igual apenas a si mesma e ter um encanto próprio. Aqui entra a adaptação humana à realidade mecanicista, aqui entra a rede que apanha grande parte do peixe no mar, toldando opções, perspetivas e atitudes, desligando-o da natureza.

Estes peixes, que seguem em cardume e encarnaram coisas, convenceram o mundo e desfizeram muitas coisas mais fortes que aço, apelaram à solidão e à noite constante.

Ontem, quiseram que percebesse que o sangue que me corre nas veias não faz de mim especial e única, apenas humana.

Hoje estou em negação, porque afinal o dia esta soalheiro

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Azul

Hoje, quando o mundo começou a andar a mil refugiei-me no jardim. 
Não que seja um grande e exuberante jardim, são poucos metros quadrados de relva macia com uma ou outra aspirante a árvore de fruto que, quando calha, dá razão ao nome.

Não sei porquê mas a sensação da relva fresca na pele e o azul do céu acalmaram um pouco o meu animo. O meu pai costuma ir para o jardim no fim do dia e até hoje eu não percebia porquê, assumo que seja genético, assumo que seja uma das muitas coisas que ganhei por ser, na língua popular, “uma fotocopia dele”. 

Senti a textura da relva nas mãos e por uma vez em anos deixei de me preocupar com a sujidade e com os micro habitantes daquele espaço, senti-lhe a frescura nas costas e a brisa na cara. Quando abri os olhos vi um pleno de azul com duas listas negras como num jogo de sombras. Tenho que admitir que os cabos eléctricos lhe davam um ar algo poético.

Vi os pardais voarem baixo e pousarem e por momentos esqueci-me que o mundo girava a mil, esqueci o que sabia e fiz parte da paisagem.

Segui, até desaparecerem do meu quadro, a rota dos aviões que o meu pai diz que voam para Londres, se para lá voam ou não acho que nunca hei-de saber. Aqueles aviões voam para onde voam os sonhos dele e agora, inconscientemente, os meus.

Porque as coisas obedecem a categorizações rígidas o meu jardim era um pomar enorme, os cabos tinham uma beleza própria e aqueles aviões voavam para Londres. 

 

 

Orgão moral da vida humana

Quão diferentes seriam as nossas vidas se lhes mudássemos apenas um ínfimo detalhe?

                Quero acreditar que esta pergunta faz parte do eterno dilema pessoal de cada um assim como do meu. Dou por mim a questionar-me se este foi o caminho certo, a tentar preencher uma lista infinita de motivos para tomar noção que esta foi a escolha certa.

                A incerteza acaba por ser uma constante humana, o ser humano não é fixo nem constante como muitos querem acreditar, o ser humano é moldável, mutável e transitório. Constitui um sistema aberto e interdependente do que o rodeia.

                Nunca sonhei desde pequena ser médica e hoje, com vinte anos, ainda não tenho as ideias assentes. Quero crer que isto é uma viagem e que vou tirar o maior proveito que conseguir dela sem deixar de apreciar a brisa.

                Tento não deixar o meu amor às artes de lado porque nem só de pão vive o homem e nem só de ciência vive a medicina. Penso que um bom médico é, para além de um exímio cientista, um belíssimo artista. Se pensarmos bem, analisar um fresco ou uma sonata não é muito diferente de analisar um paciente. Requer paciência, perícia e uma mente aberta, disposta a traçar novos caminhos e chegar à interpretação fiel.

                De modo a tentar acalmar a minha psique, que insiste em agitar-se de quando a quando, digo para mim mesma que as artes humanizam o cientista. Saber reconhecer a delicadeza de cada coisa bem como a sua essência é, para além de um princípio oriental, uma norma da arte. Este princípio acaba por ser demasiado valioso na medicina e na humanização da mesma. Quem compreende a emoção de uma sinfonia também a consegue certamente perceber numa pessoa fechada, quem consegue sentir a emoção impressa nas letras de um poema é também capaz de compreender a comunicação não-verbal durante a visita do paciente.

                Com isto, quero acreditar que esta foi a decisão certa, de que ajudar quem mais precisa me vai preencher e tornar plena mesmo que estes anos mais teóricos me levem a duvidar de mim mesma.

                Termino com as palavras do ilustre Leo Tolstoi “A arte deve ser um órgão moral da vida humana”.