Orgão moral da vida humana

Quão diferentes seriam as nossas vidas se lhes mudássemos apenas um ínfimo detalhe?

                Quero acreditar que esta pergunta faz parte do eterno dilema pessoal de cada um assim como do meu. Dou por mim a questionar-me se este foi o caminho certo, a tentar preencher uma lista infinita de motivos para tomar noção que esta foi a escolha certa.

                A incerteza acaba por ser uma constante humana, o ser humano não é fixo nem constante como muitos querem acreditar, o ser humano é moldável, mutável e transitório. Constitui um sistema aberto e interdependente do que o rodeia.

                Nunca sonhei desde pequena ser médica e hoje, com vinte anos, ainda não tenho as ideias assentes. Quero crer que isto é uma viagem e que vou tirar o maior proveito que conseguir dela sem deixar de apreciar a brisa.

                Tento não deixar o meu amor às artes de lado porque nem só de pão vive o homem e nem só de ciência vive a medicina. Penso que um bom médico é, para além de um exímio cientista, um belíssimo artista. Se pensarmos bem, analisar um fresco ou uma sonata não é muito diferente de analisar um paciente. Requer paciência, perícia e uma mente aberta, disposta a traçar novos caminhos e chegar à interpretação fiel.

                De modo a tentar acalmar a minha psique, que insiste em agitar-se de quando a quando, digo para mim mesma que as artes humanizam o cientista. Saber reconhecer a delicadeza de cada coisa bem como a sua essência é, para além de um princípio oriental, uma norma da arte. Este princípio acaba por ser demasiado valioso na medicina e na humanização da mesma. Quem compreende a emoção de uma sinfonia também a consegue certamente perceber numa pessoa fechada, quem consegue sentir a emoção impressa nas letras de um poema é também capaz de compreender a comunicação não-verbal durante a visita do paciente.

                Com isto, quero acreditar que esta foi a decisão certa, de que ajudar quem mais precisa me vai preencher e tornar plena mesmo que estes anos mais teóricos me levem a duvidar de mim mesma.

                Termino com as palavras do ilustre Leo Tolstoi “A arte deve ser um órgão moral da vida humana”.